Este é um poema de rara beleza, escrito no século Dezenove . Muitos dos sessentões de hoje tem sempre uma história para contar sobre este poema. Ou que ouvia dos avós, ou que o declamava nos concursos de poesia da escola ou que declamou para uma pessoa amada... Como um saudosista crônico, icorrigível e irrecuperável, fui resgata-lo. Nas pesquisas que fiz na internet não há um consenso quanto ao seu verdadeiro autor. Ora é atribuído ao baiano Castro Alves, ora ao seu conterrâneo Trasíbulo Ferraz Moreira e há quem assegure que não é de nenhum dos dois e sim do Maranhense Gonçalves Dias. Há também pequenas variações entre as versões atribuídas a cada um deles. Optei por uma que presumo ser mais próxima do original para apresenta-la a quem não o conhece e aos que o conhece, dar uma oportunidade de viajar no tempo.
Deixa-te disso, criança
Deixa de orgulho, sossega
Olha que a vida é um oceano
Por onde o acaso navega.
Hoje tu ostentas nas salas
As tuas pompas e galas
Os teus brasões de rainha
Amanhã, talvez, quem sabe?
Todo esse orgulho se acabe
Sendo-te a sorte mesquinha.
Deixa-te disso, olha bem
A sorte dá nega e vira
Sangue azul, em vós, fidalgos
Já neste século é mentira
Todos nós somos iguais
Os grandes, os imortais
Foram plebeus como sou
E ouve mais esta lição
Grande foi Napoleão
Grande foi Victor Hugo
Que valem nobres famílias
Linhagens puras de avós
Se o sangue dos reis é o mesmo
É o mesmo que corre em nós?
O que é belo, e sempre novo
É ver um filho do povo
Saber lutar e subir
De braços dados com a glória
Para o panteão da história
E as gerações do porvir.
De que te vale o que tens
Se não me podes comprar
Ainda que possuísses
Todas as pérolas do mar?
És fidalga, eu sou poeta!
Tens dinheiro? Eu, a completa
Riqueza no coração
Não troco uma estrofe minha
Por um colar de rainha
Ou troféus de latão.
Ainda há pouco, pedi-te
Para comigo valsar
Disseste és plebeu, és pobre
Não me quiseste aceitar.
E, no entanto, ignoras
Que aquele a quem mais adoras
Que te conquista e seduz
Embora seja da nata
Em mera figura chata
És fósforo que não dá luz.
Agora, sim, já é tempo
De dizer-te quem sou eu
Um jovem de vinte anos
Que se orgulha em ser plebeu.
Um lutador que não cansa
E que ainda tem esperança
De ser mais do que hoje é
Que luta pelo direito
Pra esmagar o preconceito
Da fidalguia sem fé.
Por isso, guardo me olhas
Com desdém e insensatez
Rio-me tanto de ti
Chego a chorar muita vez.
Chorar, sim, porque calculo
Nada pode haver mais nulo
Mais degradante e sem sal
Que uma mulher presumida
Toda, vaidosa, atrevida
Soberba, inculta e banal.