quinta-feira, 1 de abril de 2021

Reza de Mãe

 

Nem imagino onde eles estão agora.

Era mais fácil quando vestiam o pijama

e pediam a história do elefante azul.

Parece que restou um cheirinho de talco

na almofada do quarto;

deve ser só impressão…

Nesse tempo, eu não tinha medo da noite;

ela era o telhado dos poetas;

as sombras eram apenas a franja

mal aparada dos anjos.

A trava na porta me bastava.

Hoje, as camas vazias me assustam.

Elas acusam o passar das horas

e denunciam a revoada dos pardais,

os meus pardais.

Já não posso abrir minhas asas sobre eles.

São pequenas demais para cobri-los.

Ainda bem que me resta a prece,

minha aliada nos dias de nuvens e

nas madrugadas sem fim.

Peço perdão pela insistência,

mas reza de mãe é assim mesmo:

pura perseverança.

Que Deus abençoe minhas crianças

de barba na cara e calçado quarenta e dois

(o resto na vida é secundário e fica pra depois);

que as ilumine com Seu sorriso

e, se preciso, acione Seu séquito de estrelas

(se tiver de usá-las, prometo devolvê-las).

E quando o cansaço me quiser já recolhida,

hei de poder sorrir pela missão cumprida.




                                                                 (Flora Figueiredo in “Chão de Vento”)

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