terça-feira, 1 de junho de 2021

Carta ao TEMPO


Olá Tempo!
Lembra-te de mim? Não deve lembrar né?
Você passou por mim voando e eu pouco percebi. Foi o meu espelho quem te denunciou.
Por que não me informou que eu seria seu passageiro nessa viagem? E por que você não me avisou que o futuro era um lugar incerto e imprevisível?
Hoje, na solidão dos meus dias, a saudade, a nostalgia, de vez em quando me transportam para o passado e eu me pego tentando encontrar respostas para perguntas que há muito deveria ter feito e não te fiz.
Cadê Irene? Para onde você a levou? Você pode até dizer: Ah! Irene foi uma paixãozinha de colégio, singela e frívola que não era correspondida. E dai? mas em contrapartida ela me enchia de fantasias. E não interessava se a aula era de história, português ou Geografia, foi ela quem me ensinou a conjugar os verbos amar e sonhar em todos os tempos verbais e hoje você me manda conjugar o verbo desiludir? Me recuso a atende-lo. A gente não se desilude do que deixa saudade, mas daquilo que deixa frustração.
Oh! Tempo ingrato, você passou e não me alertou que a vida tem poucos dos sonhos coloridos que eu teci na minha infância e que a felicidade se encontra na rusticidade e beleza de uma flor do campo ou na elegância e leveza do voo de um colibri. Impossível para quem não é flor ou não tem asas.
Oh! Intrépido tempo! não me venha insinuar que passaste igual para todo mundo, você não passou com a mesma intensidade, generosidade ou velocidade com que passou para mim. Devolva meus quinze anos que eu não vi passar e por isso não o vivi. Meus projetos para o futuro que não pude realizar, o namoro na pracinha, minha paixão por “zefinha” que me despertava desejos e teve o condão de me encantar. Você pode me dizer por onde ela anda ou como ela está?
Oh! Malvado tempo! Permita-me reencontrar Isabella, que eu a chamava de “bella” numa redundante comparação. Quero voltar a desfilar com ela nos blocos de carnaval, fantasiados de pierrot e colombina, namorar escondido na esquina, voltar ao Clube Intermunicipal e dançar de rosto colado ao som dos PholhasBe Gees ou Queen, que fizeram eu me apaixonar por ela e ela por mim.
Oh! Impávido tempo! li em algum lugar que você é o senhor da razão, mas não me deu razões para acreditar quando também me disseram que você cura todos os males pois deixou que algumas de minhas feridas sentimentais ficassem incicatrizáveis. Você corrói, destrói, muda as pessoas, leva amigos e sepulta amores. Sim, você corroeu alguns dos meus amores, destruiu minha beleza (desculpe a presunção), levou vários amigos e sepultou muitos dos meus dos desejos.
Oh! Tempo, tempo, tempo! Não tenho medo de você, tenho respeito, pois aprendi que, dependendo das circunstâncias, você pode ser remédio ou veneno, se tornar um aliado ou um inimigo, que não podes ser medido com uma régua nem calculado pelos ponteiros de um relógio, e que és impiedoso e cruel com os que insistem em alterar o teu ciclo ou abreviar o teu ritmo, mas você não pode voltar... e eu posso! Mas nem por isso vou continuar vivendo de saudade, porque, como bem disse-me um poeta: “saudade de amores ausentes não é saudade, é lembrança. Saudade só é saudade quando morre a esperança”. E meu coração, depois de todos esses anos, pode até não estar batendo no mesmo compasso, mas ainda sonha e acredita. Afinal, sonhos não têm prazo de validade e acredita que “O amor não faz o mundo girar, mas faz com que ele valha a pena” por isso eu vou continuar a buscá-lo, esteja ele, no passado, no presente ou no futuro!
Atenciosamente,
Jacinto Saudade Aquino Peito
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Escrito por Adenildo Aquino, para a coletânea CARTAS NÃO ESCRITAS, do Projeto Apparere que busca incentivar novos autores a publicarem seus contos, crônicas, prosas, poesias etc. O livro Coletânea CARTAS NÃO ESCRITAS será lançado dia 11.06.2021

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