segunda-feira, 24 de julho de 2017

Manguaça Cultural




      Antigamente, no Brasil, para se ter melado, os escravos colocavam o caldo da cana-de-açúcar em um tacho e levavam ao fogo. Não podiam parar de mexer até que uma consistência cremosa surgisse. Porém um dia, cansados de tanto mexer e com serviços ainda por terminar, os escravos simplesmente pararam e o melado desandou. O que fazer agora? A saída que encontraram foi guardar o melado longe das vistas do feitor. No dia seguinte, encontraram o melado azedo fermentado. Não pensaram duas vezes e misturaram o tal melado azedo com o novo e levaram os dois ao fogo. Resultado: o 'azedo' do melado antigo era álcool que aos poucos foi evaporando e formou no teto do engenho umas goteiras que pingavam constantemente. Era a cachaça já formada que pingava. Daí o nome 'PINGA'. Quando a pinga batia nas suas costas marcadas com as chibatadas dos feitores ardia muito, por isso deram o nome de 'ÁGUA-ARDENTE'. Caindo em seus rostos escorrendo até a boca, os escravos perceberam que, com a tal goteira, ficavam alegres e com vontade de dançar. E sempre que queriam ficar alegres repetiam o processo.

(História contada no Museu do Homem do Nordeste)
       Não basta somente beber, tem que conhecer!

Pérola Sentimental


domingo, 11 de junho de 2017

O tempo e as Jabuticabas

                                                                 ( Rubem Alves)
   

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver
daqui para frente do que já vivi até agora.

Tenho mais passado do que futuro…
Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas…

As primeiras, ele chupou displicente… mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço…

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades…

Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados.

Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram,
cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para conversas intermináveis…

Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas que,
apesar da idade cronológica, são imaturas…

Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral…

As pessoas não debatem conteúdos… apenas os rótulos…

Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos…
quero a essência… minha alma tem pressa…

Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana  que:

sabe rir de seus tropeços…
não se encanta com triunfos…
não se considera eleita antes da hora…
não foge de sua mortalidade..

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade…

O essencial faz a vida valer a pena…
e para mim basta o essencial…

                                                                                              



Recifilosófico 004.048


sexta-feira, 2 de junho de 2017

Amar um passado

                       
                                       (Pablo Neruda)

Saudade é solidão acompanhada, 
é quando o amor ainda não foi embora,
 mas o amado já... 

Saudade é amar um passado que ainda não passou,
 
é recusar um presente que nos machuca,
 
é não ver o futuro que nos convida...

Saudade é sentir que existe o que não existe mais...
 

Saudade é o inferno dos que perderam,
 
é a dor dos que ficaram para trás,
 
é o gosto de morte na boca dos que continuam...
 

Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
 
aquela que nunca amou.
 

E esse é o maior dos sofrimentos:
 
não ter por quem sentir saudades,
 
passar pela vida e não viver.
 

O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.