quarta-feira, 7 de setembro de 2022

PATO OU ÁGUIA? VOCÊ DECIDE!

Eu estava no aeroporto quando um taxista se aproximou. 

A primeira coisa que notei no  táxi foi uma frase, logo li:

 - Pato ou Águia? 

Você decide.

A segunda coisa que notei foi um táxi limpo e brilhante, o motorista bem vestido, camisa branca e calças bem passadas, com gravata.

O taxista saiu, me abriu a porta e disse:

"Eu sou João, seu chofer. 

Enquanto guardo sua bagagem, gostaria que o senhor lesse neste cartão qual é a minha missão."

No cartão estava escrito: 

Missão de João 

- Levar meus clientes a seu destino de forma rápida, segura e econômica, oferecendo um ambiente amigável. 

Fiquei impressionado.

O interior do táxi estava igualmente limpo.

João  me perguntou:

"O sr. aceita um café?" 

Brincando com ele eu disse: 

"Não, eu prefiro um suco". 

Imediatamente ele respondeu:

"sem problema.

Eu tenho uma térmica com suco normal e também diet, bem como água" também me disse:

"Se desejar ler,  tenho o jornal de hoje e também algumas revistas." 

Ao começar a corrida João  me disse:

"Essas são as estações de rádio que tenho e esse é o repertórios que elas tocam." 

Como se já não fosse muito, o João ainda me perguntou se a temperatura do ar condicionado estava boa.

Daí me avisou qual era a melhor rota para meu destino e se eu queria conversar com ele ou se preferia que eu não fosse interrompido. 

Eu perguntei:

"Você sempre atende seus clientes assim?"

 "Não", ele respondeu.

"Não sempre. 

Somente nos últimos dois anos. 

Meus primeiros anos como taxista passei a maior parte do tempo me queixando igual aos demais taxistas.

Um dia ouvi um doutor especialista em desenvolvimento pessoal. 

Ele escreveu um livro chamado Quem você é faz a diferença. 

Ele dizia: 

Se você levanta pela manhã esperando ter um péssimo dia, certamente o terá.

Não seja um PATO!

Seja uma ÁGUIA!

Os patos só fazem barulho e se queixam, as águias se elevam acima do grupo. 

Eu estava todo o tempo fazendo barulho e me queixando.

Então decidi mudar minhas atitudes e ser uma águia. 

Olhei os outros táxis e motoristas.

Os táxis sujos, os motoristas pouco amigáveis e os clientes insatisfeitos.

Decidi fazer umas mudanças. 

Como meus clientes responderam bem, fiz mais algumas mudanças.

No meu primeiro ano como águia,  dupliquei meu faturamento. 

Este ano, já quadrupliquei.

O senhor teve sorte de tomar meu táxi hoje. Já não estou mais na parada de táxis. 

Meus clientes fazem reserva pelo meu celular ou mandam mensagem. 

Se não posso atender, consigo um amigo taxista "águia" confiável para fazer o serviço."

João era diferente. 

Oferecia um serviço de limusine em um táxi normal. 

João, o taxista, decidiu deixar de fazer ruído e queixar-se como fazem os patos e passou a voar por sobre o grupo, como fazem as águias.

Não importa se você trabalha em um escritório, com manutenção, professor, servidor público, político, executivo, empregado ou profissional liberal ou taxista!

Como você se comporta? 

Se dedica a fazer barulho e se queixar? Ou está se elevando acima dos demais? 

Lembre: A DECISÃO É SUA

Essa chave só abre pelo lado de dentro! 

E cada vez você tem menos tempo para mudar!


                                                                            (Desconheço a Autoria) 

 

sábado, 6 de agosto de 2022

O Valor da Tolerância nos relacionamentos


Quando eu ainda era um menino, ocasionalmente, minha mãe gostava de fazer um lanche, tipo café da manhã, na hora do jantar. E eu me lembro especialmente de uma noite, quando ela fez um lanche desses, depois de um dia de trabalho muito duro. Naquela noite, minha mãe pôs um prato de ovos, linguiça e torradas bastante queimadas, defronte ao meu pai.
Eu me lembro de ter esperado um pouco, para ver se alguém notava o fato. Tudo o que meu pai fez foi pegar a sua torrada, sorrir para minha mãe e me perguntar como tinha sido o meu dia na escola.
Eu não me lembro do que respondi, mas me lembro de ter olhado para ele lambuzando a torrada com manteiga e geleia e engolindo cada bocado.
Quando eu deixei a mesa naquela noite, ouvi minha mãe se desculpando por haver queimado a torrada. E eu nunca esquecerei o que ele disse: "Adorei a torrada queimada..."
Mais tarde, naquela noite, quando fui dar um beijo de boa noite em meu pai, eu lhe perguntei se ele tinha realmente gostado da torrada queimada. Ele me envolveu em seus braços e me disse:
"Companheiro, sua mãe teve um dia de trabalho muito pesado e estava realmente cansada... Além disso, uma torrada queimada não faz mal a ninguém. A vida é cheia de imperfeições e as pessoas não são perfeitas. E eu também não sou o melhor marido, empregado, ou cozinheiro, talvez nem o melhor pai, mesmo que tente todos os dias! O que tenho aprendido através dos anos é que saber aceitar as falhas alheias, escolhendo relevar as diferenças entre uns e outros, é uma das chaves mais importantes para criar relacionamentos saudáveis e duradouros. Desde que eu e sua mãe nos unimos, aprendemos, os dois, a suprir as falhas do outro. Eu sei cozinhar muito pouco, mas aprendi a deixar uma panela de alumínio brilhando. Ela não sabe usar a furadeira, mas após minhas reformas, ela faz tudo ficar cheiroso, de tão limpo. Eu não sei fazer uma lasanha como ela, mas ela não sabe assar uma carne como eu. Eu nunca soube fazer você dormir, mas comigo você tomava banho rápido, sem reclamar. A soma de nós dois monta o mundo que você recebeu e que te apoia, eu e ela nos completamos. Nossa família deve aproveitar este nosso universo enquanto temos os dois presentes."
De fato, poderíamos estender esta lição para qualquer tipo de relacionamento: entre marido e mulher, pais e filhos, irmãos, colegas e com amigos.
Então filho, se esforce para ser sempre tolerante, principalmente com quem dedica o precioso tempo da vida, a você e ao próximo.
"Dê a quem você ama: Asas para voar, raízes para voltar e motivos para ficar."


Desconheço a autoria. Caso a identifique falei a atualização desta postagem atribuindo-lhe os devidos créditos.             

Numa Taça de Vinho


Um grupo de profissionais reuniu-se para visitar seu antigo professor.
Logo estavam todos se queixando sobre o estresse na vida em geral.
Foi aí que o professor perguntou se gostariam de um vinho.
Ele foi para a cozinha e voltou com o melhor vinho da sua adega e uma variedade de taças.
Algumas simples e baratas outras decoradas, caras e exóticas.
Pediu que escolhessem a taça e se servissem de um pouco de vinho.
Depois que todos tinham feito sua escolha o mestre, calma e pacientemente conversou com o grupo:
- Como puderam notar, as mais belas taças foram as primeiras a serem escolhidas, e as mais simples ficaram por último.
Isso é natural, porque todos querem o melhor para si.
Mas essa é a causa de tanto estresse.
Ele continuou dizendo que nenhuma daquelas taças acrescentou qualidade ao vinho.
O recipiente, apenas disfarça ou mostra a bebida.
O que vocês deveriam querer era o vinho, e não a taça, mas instintivamente quiseram pegar as melhores taças.
Então, imediatamente, eles começaram a olhar para as taças uns dos outros.
E o mestre continuou:
A vida é o VINHO.
Trabalho, dinheiro, status, popularidade, beleza, relacionamentos, entre outros, são apenas recipientes que dão forma e suporte à vida.
O tipo de TAÇA que temos não pode definir nem alterar a qualidade da vida que levamos.
Muitas vezes nos concentramos apenas em escolher a melhor TAÇA e nos esquecemos de apreciar o VINHO!
“As pessoas mais felizes não são as que têm o melhor, mas as que fazem o melhor com tudo o que têm!"
Então, vivam simplesmente.
Sejam generosos.
Sejam solidários e atenciosos.
Falem com bondade e pratiquem a bondade.
E sejam gratos.
O resto, deixem nas mãos do Criador Eterno, porque a pessoa mais rica não é a que mais tem, mas a que menos precisa.
Agora desfrutem o seu VINHO!
Que não nos falte "VINHO", em todos os sentidos, que não nos falte tempo para apreciar um bom vinho, saúde e paz!


Desconheço o autor. Caso seja identificado atualizarei esta postagem dando-lhe  o respectivo crédito.

sábado, 2 de julho de 2022

Estou velho. Que dádiva!

 

Envelhecer é como escalar uma grande montanha: enquanto escala, as forças diminuem, mas o olhar é mais livre, a visão mais ampla e mais serena. (Gabriel Garcia Marques)

 Os primeiros quarenta anos de vida nos dão o texto; os próximos trinta, o comentário. (Ingmar Bergman)

 Os velhos desconfiam dos jovens porque já foram jovens.  (Arthur Schopenhauer)

 O jovem conhece as regras, mas o velho conhece as exceções. (William Shakespeare)

Na juventude aprendemos, na velhice entendemos. (Oliver Wendell Holmes)

A maturidade do homem é ter recuperado a serenidade com a qual brincávamos quando éramos crianças. (Marie von Ebner Eschenbach)

 O velho não pode fazer o que um jovem faz; mas faz melhor. (Frederich Nietzsche)

 Leva dois anos para aprender a falar e sessenta para aprender a calar a boca. (Cícero)

 As árvores mais antigas dão os frutos mais doces. (Ernest Hemingway)

 O segredo de uma boa velhice não é outra coisa senão um pacto honrado com a solidão. (Émile A. Faguet)

 Se na sua família não tem um velho, adote um. (Provérbio Alemão)

 A velhice tira o que herdamos e nos dá o que merecemos.  (Proverbio Milenar Chinês)

Há duas épocas na vida, Infância e Velhice, em que a felicidde está numa xcaixa de bombons.  ( Carlos Drummond de Andrade)

Deve-se temer a velhice, porque ela nunca vem só. Bengalas são provas de idade e não de prudência. (Platão)     

A juventude é a época de se estudar a sabedoria; a velhice é a época de a praticar. ( (Jean Jacques Rousseau)  

A velhice é uma tirania que proíbe, sob pena de morte, todos os prazeres da juventude. (François La Rochefolcauld)

Quarenta anos é velhice para a juventude, e cinquenta anos é juventude para a velhice. (Victor Hugo)

A infância é alimentada pela imaginação, a juventude pelo sonho e a velhice pela saudade. (Osman Freitas)

Um grande amor termina com a velhice e a morte... Algumas pessoas não entendem de infinito.  ( Swami Paatra Shankara) 

O tempo é um cirurgião plástico fracassado, esculpindo velhice nas paredes
e erosão no solo da face. ( Jai Della Rosa)


                                    

 

Mãe é quem fica

 “Mãe é quem fica. Depois que todos vão. Depois que a luz apaga. Depois que todos dormem. Mãe fica. Às vezes não fica em presença física. Mas mãe sempre fica. Uma vez que você tenha um filho, nunca mais seu coração estará inteiramente onde você estiver. Uma parte sempre fica. Fica neles. Se eles comeram. Se dormiram na hora certa. Se brincaram como deveriam. Se a professora da escola é gentil. Se o amiguinho parou de bater. Se o pai lembrou de dar o remédio.

Mãe fica. Fica entalada no escorregador do espaço kids, pra brincar com a cria. Fica espremida no canto da cama de madrugada pra se certificar que a tosse melhorou. Fica com o resto da comida do filho, pra não perder mais tempo cozinhando. É quando a gente fica que nasce a mãe. Na presença inteira. No olhar atento. Nos braços que embalam. No colo que acolhe.

Mãe é quem fica. Quando o chão some sob os pés. Quando todo mundo vai embora. Quando as certezas se desfazem. Mãe fica.

Mãe é a teimosia do amor, que insiste em permanecer e ocupar todos os cantos. É caminho de cura. Nada jamais será mais transformador do que amar um filho. E nada jamais será mais fortalecedor que ser amado por uma mãe.

É porque a mãe fica, que o filho vai. E no filho que vai, sempre fica um pouco da mãe: em um jeito peculiar de dobrar as roupas. Na mania de empilhar a louça só do lado esquerdo da pia. No hábito de sempre avisar que está entrando no banho. Na compaixão pelos outros. No olhar sensível. Na força pra lutar. No coração do filho, mãe fica”.

Texto de Bruna Estrela

quinta-feira, 16 de junho de 2022

Desaposentar

DESAPOSENTAR

                                                 ( Domingos Pellegrini) *

Ele chegou à praça com uma marreta. Endireitou a estaca de uma muda de  árvore e firmou batendo com a marreta. Amarrou a muda na estaca e se afastou como para olhar uma obra de arte.

Não resisti a puxar conversa:

- O senhor é da prefeitura?

- Não, sou da Alice, faz quarenta e dois anos. Minha mulher.

- Ah... O senhor quem plantou essa muda?

- Não, foi a prefeitura. Uma árvore velha caiu, plantaram essa nova de qualquer jeito, mas eu adubei, botei essa estaca aí. Olha que beleza, já está toda enfolhada. De tardezinha eu venho regar.

- Então o senhor gosta de plantas.

- De plantas, de bicho, até de gente eu gosto, filho.

- Obrigado pela parte que me cabe...

Ele sorriu, tirou um tesourão da cinta e começou a podar um arbusto.

- O senhor é aposentado?

- Não, sou desaposentado. Foi podando e explicando: Quando me aposentei, já tinha visto muito colega aposentar e murchar, que nem árvore que você poda e rega com ácido de bateria... Sabia que tem comerciante que rega árvore com ácido de bateria pra matar, pra árvore não  encobrir a fachada da loja? É... aí fica com a loja torrando no sol!

Picotou os galhos podados, formando um tapete de folhas em redor do arbusto.

- É bom pra terra... tudo que sai da terra deve voltar pra terra... Mas então, eu já tinha visto muito colega aposentar e murchar. Botando bermuda  e chinelo e ficando em casa diante da televisão.  Ou indo ao boteco pra beber cerveja, depois dormindo de tarde. Bundando e engordando... Até que  acabaram com derrame ou enfarte, de não fazer nada e ainda viver falando de doença.

Cortou umas flores, fez um ramalhete:

- Pra minha menina. A Alice. Ela é um ano mais velha que eu, mas fica uma menina quando levo flor. Ela também é desaposentada. Ajuda na escola da nossa neta, ensinando a merendeira a fazer doce com pouco açúcar e salgados com os restos dos legumes que antes eram jogados fora. E ajuda na creche também, no hospital. Ihh... A Alice vive ajudando todo mundo, por isso não precisa de ajuda, nem tem tempo de pensar em doença.

Amarrou o ramalhete com um ramo de grama, depositou com cuidado sobre um banco.

- Pra aguar as mudas eu tenho que trazer o balde com água lá de casa. Fui à  prefeitura pedir pra botarem uma torneira aqui. Disseram que não, senão o povo ia beber água e deixar vazando. Falei pra botarem uma torneira com grade e cadeado que eu cuidaria. Falaram que não. Eu teria que ficar com o cadeado e então ia ser uma torneira pública com controle particular, e não pode. Sorriu, olhando a praça.

- Aí falei: então posso cuidar da praça, mas não posso cuidar de uma torneira? Perguntaram, veja só, perguntaram se tenho autorização pra  cuidar da praça!!! Nem falei mais nada. Vim embora antes que me proibissem  de cuidar da praça... Ou antes que me fizessem preencher formulários em três vias  com taxa e firma reconhecida, pra fazer o que faço aqui desde que desaposentei...  Tá vendo aquele pinheiro fêmea ali? A Alice que plantou. Só tinha o pinheiro macho. Agora o macho vai polinizar a fêmea e ela vai dar pinhões.

- Eu nem sabia que existe pinheiro macho e pinheiro fêmea.

- Eu também não sabia, filho. Ihh... aprendi tanta coisa cuidando dessa praça! Hoje conheço os cantos dos passarinhos, as épocas de floração de cada planta, e vejo a passagem das estações como se fosse um filme!

- Mas ela vai demorar pra dar pinhões, hein? - falei, olhando a pinheirinha ainda da nossa altura. Ele respondeu que não tinha pressa.

- Nossa neta é criança e eu já falei pra ela que é ela quem vai colher os pinhões. Sem a prefeitura saber ... e a Alice falou que, de cada pinha que ela colher, deve plantar pelo menos um pinhão em algum lugar. Assim , no fim da vida, ela vai ter plantado um pinheiral espalhado por aí. Sem a prefeitura saber, é claro, senão podem criar um imposto pra quem planta árvores...

- É admirável ver alguém com tanta idade e tanta esperança!    

Ele riu:

- Se é admirável eu não sei, filho, sei que é gostoso. E agora, com licença, que eu preciso pegar a Alice pra gente caminhar. Vida de desaposentado é assim: o dinheiro é curto, mas o dia pode ser comprido, se a gente não perder tempo!


* Domingos Pellegrino é jornalista, publicitário e escritor brasileiro, cuja obra compreende romances, conto, crôinicas e poesia. É vencedor do Prêmio Jabuti em duas ocasiões.

sexta-feira, 20 de maio de 2022

O QUE A MEMÓRIA AMA, FICA ETERNO


Quando eu era pequena, não entendia o choro solto da minha mãe ao assistir a um filme, ouvir uma música ou ler um livro. O que eu não sabia é que minha mãe não chorava pelas coisas visíveis. Ela chorava pela eternidade que vivia dentro dela e que eu, na minha meninice, era incapaz de compreender.

O tempo passou e hoje me emociono diante das mesmas coisas, tocada por pequenos milagres do cotidiano.

É que a memória é contrária ao tempo. Enquanto o tempo leva a vida embora como vento, a memória traz de volta o que realmente importa, eternizando momentos. Crianças têm o tempo a seu favor e a memória ainda é muito recente. Para elas, um filme é só um filme; uma melodia, só uma melodia. Ignoram o quanto a infância é impregnada de eternidade.

Diante do tempo, envelhecemos, nossos filhos crescem, muita gente parte. Porém, para a memória, ainda somos jovens, atletas, amantes insaciáveis. Nossos filhos são crianças, nossos amigos estão perto, nossos pais ainda vivem.

Quanto mais vivemos, mais eternidades criamos dentro da gente. Quando nos damos conta, nossos baús secretos – porque a memória é dada a segredos – estão recheados daquilo que amamos, do que deixou saudade, do que doeu além da conta, do que permaneceu além do tempo.

A capacidade de se emocionar vem daí, quando nossos compartimentos são escancarados de alguma maneira. Um dia você liga o rádio do carro e toca uma música qualquer, ninguém nota, mas aquela música já fez parte de você – foi o fundo musical de um amor, ou a trilha sonora de uma fossa – e mesmo que tenham se passado anos, sua memória afetiva não obedece a calendários, não caminha com as estações; alguma parte de você volta no tempo e lembra aquela pessoa, aquele momento, aquela época…

Amigos verdadeiros têm a capacidade de se eternizar dentro da gente. É comum ver amigos da juventude se reencontrando depois de anos – já adultos ou até idosos – e voltando a se comportar como adolescentes bobos e imaturos. Encontros de turma são especiais por isso, resgatam as pessoas que fomos, garotos cheios de alegria, engraçadinhos, capazes de atitudes infantis e debilóides, como éramos há 20 ,30 ou 40 anos. Descobrimos que o tempo não passa para a memória. Ela eterniza amigos, brincadeiras, apelidos… mesmo que por fora restem cabelos brancos, artroses e rugas.

A memória não permite que sejamos adultos perto de nossos pais. Nem eles percebem que crescemos. Seremos sempre “as crianças”, não importa se já temos 30, 40 ou 50 anos. Pra eles, a lembrança da casa cheia, das brigas entre irmãos, das estórias contadas ao cair da noite… ainda são muito recentes, pois a memória amou, e aquilo se eternizou.

Por isso é tão difícil despedir-se de um amor ou alguém especial que por algum motivo deixou de fazer parte de nossas vidas. Dizem que o tempo cura tudo, mas não é simples assim. Ele acalma os sentidos, apara as arestas, coloca um band-aid na dor. Mas aquilo que amamos tem vocação para emergir das profundezas, romper os cadeados e assombrar de vez em quando. Somos a soma de nossos afetos e aquilo que amamos pode ser facilmente reativado por novos gatilhos: somos traídos pelo enredo de um filme, uma música antiga, um lugar especial.

Do mesmo modo, somos memórias vivas na vida de nossos filhos, cônjuges, ex-amores, amigos, irmãos. E mesmo que o tempo nos leve daqui, seremos eternamente lembrados por aqueles que um dia nos amaram.


Autoria:  Adelia Prado - poetisa, professora, filósofa e contista brasileira