terça-feira, 7 de outubro de 2025

Você realmente conhece as pessoas?

 Certa vez, trabalhei em uma pequena empresa de Engenharia. Foi lá que fiquei conhecendo um rapaz chamado Mauro. Ele era grandalhão e gostava de fazer brincadeiras com os outros, sempre pregando pequenas peças. Havia também o Ernani, que era um pouco mais velho que o resto do grupo. Sempre quieto, inofensivo, à parte, Ernani costumava comer o seu lanche sozinho, num canto da sala. Ele não participava das brincadeiras que fazíamos após o almoço, sendo que, ao terminar a refeição, sempre sentava sozinho debaixo de uma árvore mais distante.

Devido a esse seu comportamento, Ernani era o alvo natural das brincadeiras e piadas do grupo. Ora ele encontrava um sapo na marmita, ora um rato morto em seu chapéu. E o que achávamos mais incrível é que ele sempre aceitava aquilo sem ficar bravo. Em um feriado prolongado, Mauro resolveu ir pescar no Pantanal. Antes, nos prometeu que, se conseguisse sucesso, iria dar um pouco do resultado da pesca para cada um de nós. No seu retorno, ficamos todos muito animados quando vimos que ele havia pescado alguns dourados enormes.

Mauro, entretanto, levou-nos para um canto e nos disse que tinha preparado uma boa peça para aplicar no Ernani. Mauro dividira os dourados, fazendo pacotes com uma boa porção para cada um de nós. Mas, a 'peça' programada era que ele havia separado os restos dos peixes num pacote maior, à parte. 'Vai ser muito engraçado quando o Ernani desembrulhar esse 'presente' e encontrar espinhas, peles e vísceras!', disse-nos Mauro, que já estava se divertindo com aquilo.

Mauro então distribuiu os pacotes no horário do almoço. Cada um de nós, que ia abrindo o seu pacote contendo uma bela porção de peixe, então dizia: 'Obrigado!'. Mas o maior pacote de todos, ele deixou por último. Era para o Ernani. Todos nós já estávamos quase explodindo de vontade de rir, sendo que Mauro exibia um ar especial, de grande satisfação. 
Como sempre, Ernani estava sentado sozinho, no lado mais afastado da grande mesa. 
Mauro então levou o pacote para perto dele, e todos ficamos na expectativa do que estava para acontecer.

Ernani não era o tipo de muitas palavras. Ele falava tão pouco que, muitas vezes, nem se percebia que ele estava por perto. Em três anos, ele provavelmente não tinha dito nem cem palavras ao todo. Por isso, o que aconteceu a seguir nos pegou de surpresa. Ele pegou o pacote firmemente nas mãos e o levantou devagar, com um grande sorriso no rosto. Foi então que notamos que seus olhos estavam brilhando. Por alguns momentos, o seu pomo de Adão se moveu para cima e para baixo, até ele conseguir controlar sua emoção.

'Eu sabia que você não ia se esquecer de mim', disse com a voz embargada.-'Eu sabia, você é grandalhão e gosta de fazer brincadeiras, mas sempre soube que você tem um bom coração'. 
Ele engoliu em seco novamente, e continuou falando, dessa vez para todos nós: 
'Eu sei que não tenho sido muito participativo com vocês, mas nunca foi por má intenção. 
Sabem... Eu tenho cinco filhos em casa, e uma esposa inválida, que há quatro anos está presa na cama. E estou ciente de que ela nunca mais vai melhorar. Às vezes, quando ela passa mal, eu tenho que ficar a noite inteira acordado, cuidando dela. E a maior parte do meu salário tem sido para os seus médicos e os remédios. As crianças fazem o que podem para ajudar, mas tem sido difícil colocar comida para todos na mesa. Vocês talvez achem esquisito que eu vá comer o meu almoço sozinho, num canto...

Bem, é que eu fico meio envergonhado, porque na maioria das vezes eu não tenho nada para pôr no meu sanduíche. Ou, como hoje, eu tinha somente uma batata na minha marmita. Mas eu quero que saibam que essa porção de peixe representa, realmente, muito para mim.  Provavelmente muito mais do que para qualquer um de vocês, porque hoje à noite os meus filhos...', ele limpou as lágrimas dos olhos com as costas das mãos. 
'Hoje à noite os meus filhos vão ter, realmente, depois de alguns anos...' e ele começou a abrir o pacote...

Nós tínhamos estado prestando tanta atenção no Ernani, enquanto ele falava, que nem havíamos notado a reação do Mauro. Mas agora, todos percebemos a sua aflição quando ele saltou e tentou pegar o pacote das mãos do Ernani. Mas era tarde demais. Ernani já tinha aberto e pacote e estava, agora, examinando cada pedaço de espinha, cada porção de pele e de vísceras, levantando cada rabo de peixe. Era para ter sido tão engraçado, mas ninguém riu. Todos nós ficamos olhando para baixo. E a pior parte foi quando Ernani, tentando sorrir, falou a mesma coisa que todos nós havíamos dito anteriormente: - 'Obrigado!'.

Em silêncio, um a um, cada um dos colegas pegou o seu pacote e o colocou na frente do Ernani, porque depois de muitos anos nós havíamos, de repente, entendido quem era realmente o Ernani. Uma semana depois, a esposa de Ernani faleceu. Cada um de nós, daquele grupo, passou então a ajudar as cinco crianças. Mauro, hoje aposentado, continua fazendo brincadeiras; entretanto, são de um tipo muito diferente: Ele organizou nove grupos de voluntários que distribuem brinquedos para crianças hospitalizadas e as entretêm com jogos, estórias e outros divertimentos.

Às vezes, convivemos por muitos anos com uma pessoa, para só então percebermos que mal a conhecemos. Nunca lhe demos a devida atenção; não demonstramos qualquer interesse pelas coisas dela; ignoramos as suas ansiedades ou os seus problemas. Que possamos manter sempre vivo, em nossas mentes, o ensinamento de Jesus Cristo: ' Como Eu vos amei, amai-vos também uns aos outros.'(João 13,34).


Cada Ernani sabe o fardo que carrega... , portanto respeite o jeito de ser de cada um
.




                                                                                          (Desconheço a autoria)

quarta-feira, 10 de setembro de 2025

O perdão liberta a quem dá e a quem recebe!



Pouca gente conhece essa história. Mas ela está entre as mais comoventes já vividas por um dos maiores nomes da cultura brasileira. É uma história real. Uma daquelas que mexem com a gente por dentro. Que desafiam o ego, que escancaram a dor... mas também revelam o tamanho da alma.
Jô Soares perdeu sua mãe, Mercedes Leal Soares, de forma trágica. Ela tinha 70 anos quando foi atropelada por um táxi em um dia chuvoso.
O acidente aconteceu de maneira inesperada, como quase sempre acontece com as tragédias.
Ela foi socorrida imediatamente pelo próprio motorista, que ficou ao lado do marido dela — o pai de Jô — até o último segundo.

Mas, infelizmente, a fratura na base do crânio foi fatal. E Mercedes não resistiu.
Agora respira fundo.
Dez anos se passaram.
Jô estava em um aeroporto do Rio de Janeiro, no Santos Dumont. Pediu um táxi como faria qualquer pessoa.
Entrou no carro sem imaginar que aquele seria um dos encontros mais intensos e simbólicos da sua vida.

A corrida seguiu normalmente.
Mas, ao final, o motorista parou, virou-se para ele, com olhos cheios de lágrimas, e disse:
— “Senhor Jô... eu sou o homem que atropelou sua mãe.”

Silêncio.

O tempo deve ter parado por alguns segundos naquele carro.
O motorista então revelou que carregava aquele peso havia anos. Que desde aquele dia não conseguia mais dormir em paz.
Disse que só encontraria descanso verdadeiro quando pudesse olhar nos olhos de Jô e ouvir, da boca dele, que estava perdoado.

Agora imagine.

Imagine a dor contida naquele reencontro.
A culpa do motorista.
A saudade da mãe.
A surpresa de Jô.
E, mesmo assim, ele não hesitou.

Com a voz calma e o coração cheio de humanidade, Jô respondeu:

— “O perdão foi dado ali mesmo, naquele dia. Quando você socorreu minha mãe. Quando ficou com meu pai. Quando teve dignidade e humanidade diante do que aconteceu. Você não teve culpa. E eu já estou em paz com isso há muito tempo.”

Ambos começaram a chorar.

Ali, naquele carro parado, duas vidas foram tocadas pelo mistério do perdão.
Jô Soares contou essa história em 2015, durante uma entrevista ao jornalista Marcelo Bonfá.
E, com a serenidade de quem já compreendeu as coisas mais profundas da vida, ele concluiu:

— “O perdão é a coisa mais importante do mundo.”

Essa história nos desarma.
Ela nos lembra que há tragédias inevitáveis, dores que não têm explicação, feridas que a gente pensa que nunca vão cicatrizar.
Mas também nos lembra que, mesmo dentro dessas dores, existe espaço para a compaixão.

Para a empatia.

Para o perdão que liberta — a quem dá e a quem recebe.
Hoje, mais do que nunca, o Brasil precisa ouvir histórias assim.
Histórias reais.
Humanas.
Capazes de acender uma luz no meio da escuridão.
Se Jô Soares, com toda sua dor, foi capaz de perdoar o homem que tirou a vida de sua mãe...
O que nos impede de perdoar as pequenas mágoas do nosso cotidiano?



(Texto que circula na Internet)

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Reflexões do oncologista brasileiro Drauzio Varela

1. A terceira idade da vida começa oficialmente aos 60 anos e espera-se que termine aos 80.

2. A quarta idade, ou velhice, começa aos 80 anos e termina aos 90.

3. A longevidade começa aos 90 anos e termina após a morte.

4. O principal problema de uma pessoa idosa é a solidão. Frequentemente, os cônjuges não envelhecem juntos, alguém sempre vai primeiro. Um viúvo ou viúva se torna um fardo para sua família. Por isso, é tão importante não perder o contato com amigos, se reunir e se comunicar com frequência, para não ser um fardo para os filhos e netos, que provavelmente nunca dirão isso.

5. Minha recomendação pessoal é não perder o controle da sua vida. Isso significa decidir quando e com quem sair, o que comer, como se vestir, a quem ligar, a que hora dormir, o que ler, com o que se divertir, o que comprar, onde morar, etc. Porque se você não pode fazer todas essas coisas livremente e por conta própria, você se tornará uma pessoa insuportável que será um fardo para a vida dos outros.

William Shakespeare disse: "Sempre se sinta feliz!" Você sabe por quê? Porque não espero nada de ninguém. A espera sempre é agonizante. Os problemas não são eternos, sempre têm uma solução. Acredita-se que somos culpados pelos nossos problemas. O único para o que não há cura é a morte.

Antes de reagir... inspire profundamente; Antes de falar... escute; Antes de criticar... olhe para si mesmo; Antes de escrever... pense com cuidado; Antes de atacar... renda-se; Antes de morrer... viva a vida mais linda que puder!!!

A melhor relação não é com a pessoa perfeita, mas com alguém que aprendeu e está aprendendo a viver de forma tão interessante e bonita quanto possível. Observe as deficiências das outras pessoas... mas também admire e elogie suas virtudes.

Se você quer ser feliz, tem que fazer alguém feliz. Se você quer algo, primeiro deve dar algo de si mesmo. Você precisa se rodear de pessoas boas, amigáveis e interessantes e ser um deles.

Lembre-se: Nos momentos difíceis, mesmo com lágrimas nos olhos, levante-se e diga com um sorriso: "tudo está bem, porque somos frutos de um processo evolutivo.

terça-feira, 1 de julho de 2025

A torcida da sua vida!

Mesmo antes de nascer, já tinha alguém torcendo por você. Tinha gente  que torcia para você ser menino. Outros torciam para você ser menina.

Torciam para você puxar a beleza da mãe, o bom humor do pai. Estavam torcendo para você nascer perfeito. Daí continuaram torcendo…

Torceram pelo seu primeiro sorriso, pela primeira palavra, pelo primeiro passo. O seu primeiro dia de escola foi a maior torcida. E o primeiro gol, então? E, de tanto torcerem por você, você aprendeu a torcer. Começou a torcer para ganhar muitos presentes e flagrar Papai Noel.
Torcia o nariz para o quiabo e a escarola. Mas torcia por hambúrguer e refrigerante. Começou a torcer até para um time. Provavelmente, nesse dia, você descobriu que tem gente que torce diferente de você.

Seus pais torciam para você comer de boca fechada, tomar banho, escovar os dentes, estudar inglês e piano. Eles só estavam torcendo para você ser uma pessoa bacana. Seus amigos torciam para você usar brinco, cabular aula, falar palavrão. Eles também estavam torcendo
para você ser bacana.

Nessas horas, você só torcia para não ter nascido. E por não saber pelo que você torcia, torcia torcido. Torceu para seus irmãos se ferrarem, torceu para o mundo explodir. E quando os hormônios começaram a torcer, torceu pelo primeiro beijo, pelo primeiro amasso.

Depois começou a torcer pela sua liberdade. Torcia para viajar com a turma, ficar até tarde na rua. Sua mãe só torcia para você chegar vivo em casa. Passou a torcer o nariz para as roupas da sua irmã, para as ideias dos professores e para qualquer opinião dos seus pais. Todo mundo queria era torcer o seu pescoço.

Foi quando até você começou a torcer pelo seu futuro. Torceu para ser médico, músico, advogado… Na dúvida, torceu para ser físico nuclear ou jogador de futebol. Seus pais torciam para passar logo essa fase.

No dia do vestibular, uma grande torcida se formou. Pais, avós, vizinhos, namoradas e todos os santos torceram por você. Na faculdade, então, era torcida pra todo lado. Para a direita, esquerda, contra a corrupção, a fome na Albânia e o preço da coxinha na cantina.

E, de torcida em torcida, um dia teve um torcicolo de tanto olhar para ‘ela’… Primeiro, torceu para ela não ter outro. Torceu para ela não te achar muito baixo, muito alto, muito gordo, muito magro. Descobriu que ela torcia igual a você. E de repente vocês estavam torcendo para não acordar desse sonho.

Torceram para ganhar a geladeira, o microondas e a grana para a viagem de lua-de-mel. E, daí pra frente, você entendeu que a vida é uma grande torcida. Porque, mesmo antes do seu filho nascer, já tinha muita gente torcendo por ele. Mesmo com toda essa torcida, pode ser
que você ainda não tenha conquistado algumas coisas.

Mas muita gente ainda torce por você!!!



     (Texto recebido através do WhatsApp com autoria atribuída a Carlos Drummond de Andrade).

quarta-feira, 25 de junho de 2025

Não canse quem te quer bem



Foi durante o programa Saia Justa que a atriz Camila Morgado, discutindo sobre a chatice dos outros (e a nossa própria), lançou a frase: “Não canse quem te quer bem”. Diz ela que ouviu isso em algum lugar, mas enquanto não consegue lembrar a fonte, dou a ela a posse provisória desse achado.

Não canse quem te quer bem. Ah, se conseguíssemos manter sob controle nosso ímpeto de apoquentar. Mas não. Uns mais, outros menos, todos passam do limite na arte de encher os tubos. Ou contando uma história que não acaba nunca, ou pior: contando uma história que não acaba nunca cujos protagonistas ninguém jamais ouviu falar. Deveria ser crime inafiançável ficar contando longos casos sobre gente que não conhecemos e por quem não temos o menor interesse. Se for história de doença, então, cadeira elétrica.

Não canse quem te quer bem. Evite repetir sempre a mesma queixa. Desabafar com amigos, ok. Pedir conselho, ok também, é uma demonstração de carinho e confiança. Agora, ficar anos alugando os ouvidos alheios com as mesmas reclamações, dá licença. Troque o disco. Seus amigos gostam tanto de você, merecem saber que você é capaz de diversificar suas lamúrias.

Não canse quem te quer bem. Garçons foram treinados para te querer bem. Então não peça para trocar todos os ingredientes do risoto que você solicitou – escolha uma pizza e fim.

Seu namorado te quer muito bem. Não o obrigue a esperar pelos 20 vestidos que você vai experimentar antes de sair – pense antes no que vai usar. E discutir a relação, só uma vez por ano, se não houver outra saída.

Sua namorada também te quer muito bem. Não a amole pedindo para ela explicar de onde conhece aquele rapaz que cumprimentou na saída do cinema. Ciúme toda hora, por qualquer bobagem, é esgotante.

Não canse quem te quer bem. Não peça dinheiro emprestado pra quem vai ficar constrangido em negar. Não exija uma dedicatória especial só porque você é parente do autor do livro. E não exagere ao mostrar fotografias. Se o local que você visitou é realmente incrível, mostre três, quatro no máximo. Na verdade, fotografia a gente só mostra pra mãe e para aqueles que também aparecem na foto.

Não canse quem te quer bem. Não faça seus filhos demonstrarem dotes artísticos (cantar, dançar, tocar violão) na frente das visitas. Por amor a eles e pelas visitas.

Implicâncias quase sempre são demonstrações de afeto. Você não implica com quem te esnoba, apenas com quem possui laços fraternos. Se um amigo é barrigudo, será sobre a barriga dele que faremos piada. Se temos uma amiga que sempre chega atrasada, o atraso dela será brindado com sarcasmo. Se nosso filho é cabeludo, “quando é que tu vai cortar esse cabelo, garoto?” será a pergunta que faremos de segunda a domingo. Implicar é uma maneira de confirmar a intimidade. Mas os íntimos poderiam se elogiar, pra variar.

Não canse quem te quer bem. Se não consegue resistir a dar uma chateada, seja mala com pessoas que não te conhecem. Só esses poderão se afastar, cortar o assunto, te dar um chega pra lá. Quem te quer bem vai te ouvir até o fim e ainda vai fazer de conta que está se divertindo. Coitado. Prive‐o desse infortúnio. Ele não tem culpa de gostar de você.

(Martha Medeiros – Zero Hora – 22 de janeiro de 2012.)

terça-feira, 27 de maio de 2025

A velhice não aceita despreparo






A velhice não aceita despreparo.
Ela não chega com delicadeza… e quem a espera de mãos vazias, sente o peso da dependência.
Prepare-se. Tenha algo guardado, um teto seguro, um carro à disposição.

Mas acima de tudo: que tudo isso seja seu.
Porque envelhecer com dignidade exige autonomia.
Não reescreva seus bens. Não confie cegamente que alguém cuidará de você como você cuida de si.
Seja leve: menos posses, mais paz.
Quanto mais coisas você tem, mais elas te exigem… e, se não perceber, passam a te possuir.
A arte de viver é uma habilidade rara.
É saber dormir profundamente, comer com prazer, rir com liberdade — e não se deixar consumir pelas preocupações.
Lembre-se: neste mundo, nada é realmente nosso.
E quanto menos pertencermos às coisas, mais livres seremos por dentro.
A verdadeira prisão é a do apego.
E a liberdade começa quando aprendemos a viver com o essencial.





Robert |De Niro - Ator, produtor e cineasta ítalo-americano. 

 

 

domingo, 4 de maio de 2025

ORGULHOSA


Este é um poema de rara beleza, escrito no século Dezenove . Muitos dos sessentões de hoje tem sempre uma história para contar sobre este poema. Ou que ouvia dos avós, ou que o declamava nos concursos de poesia da escola ou que declamou para uma pessoa amada... Como um saudosista crônico, icorrigível e irrecuperável, fui resgata-lo. Nas pesquisas que fiz na internet não há um consenso quanto ao seu verdadeiro autor. Ora é atribuído ao baiano Castro Alves, ora ao seu conterrâneo Trasíbulo Ferraz Moreira e há quem assegure que não é de nenhum dos dois e sim do Maranhense Gonçalves Dias. Há também pequenas variações entre as versões atribuídas a cada um deles. Optei por uma que presumo ser mais próxima do original para apresenta-la a quem não o conhece e aos que o conhece, dar uma oportunidade de viajar no tempo.

Deixa-te disso, criança
Deixa de orgulho, sossega
Olha que a vida é um oceano
Por onde o acaso navega.

Hoje tu ostentas nas salas
As tuas pompas e galas
Os teus brasões de rainha
Amanhã, talvez, quem sabe?
Todo esse orgulho se acabe
Sendo-te a sorte mesquinha.

Deixa-te disso, olha bem
A sorte dá nega e vira
Sangue azul, em vós, fidalgos
Já neste século é mentira

Todos nós somos iguais
Os grandes, os imortais
Foram plebeus como sou
E ouve mais esta lição
Grande foi Napoleão
Grande foi Victor Hugo

Que valem nobres famílias
Linhagens puras de avós
Se o sangue dos reis é o mesmo
É o mesmo que corre em nós?

O que é belo, e sempre novo
É ver um filho do povo
Saber lutar e subir
De braços dados com a glória
Para o panteão da história
E as gerações do porvir.

De que te vale o que tens
Se não me podes comprar
Ainda que possuísses
Todas as pérolas do mar?

És fidalga, eu sou poeta!
Tens dinheiro? Eu, a completa
Riqueza no coração
Não troco uma estrofe minha
Por um colar de rainha
Ou troféus de latão.

Ainda há pouco, pedi-te
Para comigo valsar
Disseste és plebeu, és pobre
Não me quiseste aceitar.

E, no entanto, ignoras
Que aquele a quem mais adoras
Que te conquista e seduz
Embora seja da nata
Em mera figura chata
És fósforo que não dá luz.

Agora, sim, já é tempo
De dizer-te quem sou eu
Um jovem de vinte anos
Que se orgulha em ser plebeu.

Um lutador que não cansa
E que ainda tem esperança
De ser mais do que hoje é
Que luta pelo direito
Pra esmagar o preconceito
Da fidalguia sem fé.

Por isso, guardo me olhas
Com desdém e insensatez
Rio-me tanto de ti
Chego a chorar muita vez.

Chorar, sim, porque calculo
Nada pode haver mais nulo
Mais degradante e sem sal
Que uma mulher presumida
Toda, vaidosa, atrevida
Soberba, inculta e banal.